terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Câmara Municipal de Mação manifesta indignação | entroncamentoonline.pt

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https://youtu.be/Xo9G9C6KvCE


VIOLA CHINESA

Vai adormecendo a parlenda 
Sem que amadornado eu atenda 
A lengalenga fastidiosa.
Sem que o meu coração se prenda,

Enquanto, nasal, minuciosa, 
Ao longo da viola morosa, 
Vai adormecendo a parlenda.
Mas que cicatriz melindrosa 

Há nele, que essa viola ofenda 
E faz que as asitas distenda 
Numa agitação dolorosa?
Ao longo da viola, morosa...

Ao longo da viola morosa  
Camilo Pessanha
  

quarta-feira, 29 de novembro de 2017



Desde a Aurora

Como um sol de polpa escura 
para levar à boca, 
eis as mãos: 
procuram-te desde o chão, 

entre os veios do sono 
e da memória procuram-te: 
à vertigem do ar 
abrem as portas: 

vai entrar o vento ou o violento 
aroma de uma candeia, 
e subitamente a ferida 
recomeça a sangrar: 

é tempo de colher: a noite 
iluminou-se bago a bago: vais surgir 
para beber de um trago 
como um grito contra o muro. 

Sou eu, desde a aurora, 
eu — a terra — que te procuro. 

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio" 

Poesia 2


não procuro um amor entre os cardos,
se é entre os cardos que me vês, procura
pensar que um amor não se perde por ali
nem por ali se deve encontrar. se estou
entre os cardos, meu amor, é para te esquecer
e se me vires, pensa que é por ti, absolutamente por ti
que procuro apenas dores, apenas fardos,
para lentamente matar o meu coração. e
se me vires cair, se entretanto me vires no chão,
não me apanhes, não me ajudes, pensa que
já ninguém passeia nos cardos e que o
amor, para castigo dos que morrem, recomeça
num outro lugar, seguramente à tua espera.
depois sorri mesmo que te seja difícil, se por
mais difícil que seja para mim ver-te sorrir
é entre os cardos que devo partir, quando
fugazmente te souber passando, tão parecida
com ires buscar a felicidade sem mim e eu
só mais uns segundos, já meus anjos preparados.

valter hugo mãe
em O Prisma das Muitas Cores
Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira






Autopsicografia


 O poeta é um fingidor.
 Finge tão completamente
 Que chega a fingir que é dor
 A dor que deveras sente.

 E os que lêem o que escreve,
 Na dor lida sentem bem,
 Não as duas que ele teve,
 Mas só a que eles não têm.

 E assim nas calhas de roda
 Gira, a entreter a razão,
 Esse comboio de corda
 Que se chama coração.

 Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

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